Serro – MG

19/01/2012 - Por Sávio Ivo

Igreja do Rosário

 

O Serro que eu conheci foi o Serro das congadas, festa popular que comemora a coroação do Rei Congo e sua Rainha pelos festeiros da Irmandade do Rosário, então é dessa cidade que eu posso falar. Não vi cachoeira, não saí da cidade, não fui subir ou descer montanha, nem cheguei perto de resort. Fui para a festa. E foi maravilhoso.

A cidade fica no norte de Minas, perto da nascente do rio Jequitinhonha e das cidades de Diamantina e Milho Verde. É uma região de serra e chapadas. O clima em julho é seco e bem frio, muito frio. É uma cidade colonial da época do começo da mineração em Minas. Foi arraial, depois comarca, depois virou cidade. Ficou um tempo congelada no tempo em função do pouco desenvolvimento. Se por um lado a cidade não se desenvolveu, por outro o conjunto urbano foi preservado. Foi o primeiro conjunto urbano tomabado pelo IPHAN ainda na década de trinta. Dá para se chegar de ônibus e carro.

Caboclos

Em Minas Gerais, foram catalogadas oito guardas de congos – a saber: candombe, moçambique, congo, vilão, marujos, catopês, cavaleiros de São Jorge e caboclinhos (em certos lugares, estes últimos são denominados tapuios, caiapós, botocudos ou caboclos) – sendo que no Serro somente se apresentam tradicionalmente três delas: os Caboclos, os Catopês e os Marujos e um grupo de pau e corda chamado Caixa de Assovio. Na tradição local, essas três guardas representam grupos étnicos; respectivamente, índios, negros e portugueses. A Caixa de Assovio corresponde ao gemido dos escravos e abre a festa profana na alvorada do sábado na igreja do Rosário.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição

A festa acontece sempre no primeiro final de semana de julho. Na verdade, a parte profana da festa acontece nessa data. A festa toda começa sempre com uma novena e  os ensaios dos grupos de brincante. São vários rituais, procissões e apresentações que se espalham pela cidade. Tudo começa com a “Matina”, um ritual em que a Caixa de Assovio circunda a igreja do Rosário até que sejam abertas as portas para os participantes da festa. Leve casaco! Houve época que a cidade era a comarca do Serro do Frio. Os grupos estarão espalhaods pela cidade em direção às casas dos festeiros e representes do Reinado. A corte é formada pelo Rei Congo, a Rainha, dois Juízes, duas Juízas e Mordomos. Eles rsão os esponsáveis por angariar fundos para a realização da festa e promoverem os almoços e jantares para os grupos e a comunidade que os acompanham durante os dias de festaAs refeições acontecem na casa, ou local preparado pelo festeiro, e compreendem um café da manhã, três almoços e três jantares acontecendo simultaneamente na casa de cada festeiro. Existe ainda uma divisão de cardápios servidos no domingo e na segunda-feira; no domingo são servidos salgados e na segunda, doces.

Capela de Santa Rita

A noite, acontece o cortejo da bandeira que será erguida no mastro. Os grupos saem às ruas com seus instrumentos – em geral instrumentos de pau e corda havendo também a presença de sanfonas – pegam a bandeira que estará em um lugar determinado e vão em cortejo até o largo do Rosário para o levantamento do mastro. Junto com o levantamento do mastro tem uma queima de fogos. Nesse período de festa, parte da cidade alta é tomada por vendedores que montam uma enorme feira livre, onde são vendidos todos os tipos de mercadorias, de material de construção a roupas, de CDs a mantimentos. Próximo ao largo do Rosário, é montado um parque com brinquedos elétricos para as crianças. As atividades dessa feira não têm limite de horário.

Na manhã do domingo, por volta das seis da matina, os grupos saem às ruas novamente, dessa vez caracterizados com indumentária tradicional, para compor o primeiro Reinado. Os grupos vão às casas de cada membro do antigo Reinado para escoltá-los até a igreja do Rosário para missa solene. Os Catopês ficaram responsáveis por acompanhar o Rei, a Rainha e as Princesas; os Caboclos acompanharam os Juízes e os Marujos, as Juízas. O resto do dia foi consagrado às visitas dos grupos aos membros do Reinado e performances específicas de cada grupo pelas ruas da cidade. Na segunda-feira, último dia da festa e feriado municipal, acontece a reunião do segundo Reinado, nos moldes do dia anterior. Concentrados no largo do Rosário acontecem várias performances específicas de cada grupo e, em particular, a Resinga que conta com a performance de grupos antagônicos em batalha, no caso, Marujos e Caboclos. Na capela do Rosário será realizada a Missa Conga. Nessa celebração acontece a eucaristia misturando elementos católicos com elementos da cultura afro-brasileira: músicas e instrumentos de percussão e roupas de estilo africano. São ofertadas frutas e comidas no momento do ofertório, e os hinos cantados misturam hinos católicos à temas consagrados pela tradição popular.

Caboclos

Na congada do Serro, existem diversos enredos simultâneos sendo encenados nos dias de festa pelos grupos de Congos. No entanto, existe uma hierarquia entre as narrativas. O enredo que figura como estrutura primeira, organizador de todas as narrativas é uma lenda local  sobre o surgimento da imagem de N.sra. do Rosário. A lenda contada fala de uma imagem de N.sra. do Rosário surgida no mar. Essa imagem fora encontrada por um grupo de Caboclos, já catequizados pelos jesuítas, que teriam visto de longe o brilho do resplendor da virgem. Esse grupo se reuniu na praia para cantar, tocar e dançar a fim de trazer a imagem para a margem. A imagem se deslocou em direção ao grupo, mas não chegou à margem.

Rua Ant. Honório Pires

Depois dos Caboclos, veio um grupo de Marujos. Também tocaram, cantaram e dançaram para a imagem e, mais uma vez, ela se moveu, mas não chegou perto o bastante da margem para ser resgatada. Vieram os Catopês, que eram um grupo de negros escravos, vestidos em andrajos, para tocar, cantar e dançar para a imagem da Virgem. Quando a imagem estava próxima o bastante da margem, os escravos fizeram uma corda com os andrajos que portavam e resgataram-na.
Essa história é uma versão corrente na cidade, conhecida por boa parte da população. Faz parte da tradição oral local desde o séc. XVIII e está registrada no livro do estatuto da Ordem Terceira da Irmandade de N.sra. do Rosário dos Homens Pretos do Serro.

A festa é coloridíssima e a música dos grupos é das mais legais que já ouvi. Para quem gosta de percussão é um excelente programa.

 

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2 Comentários

  1. Irene Neves disse:

    Olá Savio,

    Tudo bem? Aqui é a Irene, amiga de muitos anos da sua querida família. Compartilhamos muitos, muitos momentos agradáveis ao sabor das deliciosas guloseimas preparadas com tanto carinho pela sua mãe.

    Uma grande emoção invadiu ao reencontrá-lo através do seu trabalho. Parabéns! Já sabíamos o lugar reservado para vc neste Planeta.

    Um abraço super carinhoso,

    Irene Neves

  2. marcio disse:

    muito bom essa reportagem de serro mg minha cidade

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